<p><strong>Por Kupan Puri</strong></p><p>O Manifesto Puri nasce de uma necessidade simples e profunda: afirmar que território, água e floresta não são assuntos separados. Para a comunidade Krim Orutu, falar sobre o território é falar também sobre os caminhos dos parentes, os lugares de memória, as nascentes, os animais, as plantas, os modos de fazer e a possibilidade de continuar existindo como povo. O documento reúne uma posição política e comunitária diante de um cenário em que decisões tomadas longe da aldeia podem produzir consequências por muitas gerações.</p><p>A palavra manifesto não significa apenas um texto de denúncia. Ela também é uma forma de presença. Ao registrar uma posição, a comunidade organiza sua memória, apresenta suas preocupações e estabelece compromissos públicos. O Manifesto Puri defende que qualquer política de reparação, proteção ambiental ou planejamento territorial precisa considerar a experiência de quem vive e conhece a região. Mapas técnicos são importantes, mas não substituem a memória dos caminhos, o conhecimento das águas e a percepção cotidiana das mudanças na paisagem.</p><h2>Território é relação</h2><p>Uma visão reduzida entende território como uma área delimitada por linhas. Para os povos indígenas, território é uma rede de relações. Ele inclui a terra onde se planta, o rio onde se pesca ou se busca água, a mata onde se encontram materiais e remédios, os locais de reunião, os cemitérios, os espaços de espiritualidade e as histórias transmitidas entre gerações. Quando um desses elementos é alterado, a mudança alcança muitos outros.</p><p>Por isso, a proteção territorial não pode ser pensada somente como fiscalização de um ponto específico. É preciso observar o conjunto: a qualidade da água, a abertura de estradas, a pressão sobre a vegetação, o avanço de empreendimentos, o acesso das famílias e a segurança dos lugares de uso comunitário. Também é necessário reconhecer que os danos podem ser lentos. Uma nascente pode continuar existindo e, ainda assim, perder qualidade; uma área de mata pode permanecer verde e ter sua diversidade diminuída.</p><h2>Água como direito e memória</h2><p>O Rio Doce e seus afluentes fazem parte da história de muitas comunidades. A água sustenta a vida, mas também guarda lembranças. Crianças aprendem a reconhecer o território acompanhando cursos d’água, adultos constroem relações de trabalho e cuidado em torno deles, e os mais velhos preservam narrativas sobre cheias, peixes, travessias e lugares antigos. Quando a água é contaminada ou perde sua função, o prejuízo não cabe apenas em uma avaliação financeira.</p><p>Defender a água exige acesso a informação confiável. Resultados de monitoramento precisam ser divulgados em linguagem compreensível, com metodologia, período de coleta e explicação sobre os limites de cada análise. A comunidade deve ter condições de acompanhar a qualidade da água e questionar estudos quando eles não contemplarem os lugares realmente usados pelos moradores. Participação não é receber um resultado pronto; é poder acompanhar a construção do conhecimento.</p><h2>Mata Atlântica e continuidade</h2><p>A Mata Atlântica é lembrada muitas vezes pela sua importância ecológica, mas para a comunidade ela também é espaço de aprendizagem, cuidado e continuidade cultural. Plantas, sementes, fibras, frutos e madeiras fazem parte de saberes que não podem ser tratados como simples estoque de recursos. A proteção da mata deve respeitar os usos tradicionais e fortalecer a autonomia, sem transformar a comunidade em visitante de seu próprio território.</p><p>Conservar não é congelar a paisagem nem impedir a vida comunitária. É garantir que o uso seja responsável, que os ciclos naturais sejam respeitados e que as decisões sejam tomadas com conhecimento e participação. Projetos de recuperação ambiental devem ouvir os moradores sobre espécies adequadas, áreas prioritárias e formas de cuidado. Plantar qualquer árvore não significa recuperar uma floresta; é preciso reconstruir relações ecológicas e culturais.</p><h2>Reparação com justiça</h2><p>O debate sobre reparação no Rio Doce precisa ir além da compensação financeira. Recursos podem apoiar ações importantes, mas não reconstroem automaticamente vínculos, práticas e segurança. Uma reparação justa deve reconhecer os danos coletivos, garantir participação efetiva e apoiar iniciativas definidas pela própria comunidade. Deve também criar mecanismos de acompanhamento para que promessas possam ser verificadas ao longo do tempo.</p><p>O Manifesto Puri reforça que a comunidade não quer ser apenas consultada depois que as decisões já foram tomadas. Quer participar desde a definição dos problemas até a escolha das medidas. Isso inclui decidir quais estudos são necessários, quais informações devem ser produzidas e como os resultados serão avaliados. A consulta precisa respeitar tempo comunitário, instituições próprias e a liberdade de discordar.</p><h2>Um compromisso público</h2><p>Ao tornar pública sua posição, a Krim Orutu contribui para um debate que interessa a toda a sociedade. Proteger o território indígena, a água e a Mata Atlântica também significa proteger o futuro comum. A comunidade seguirá registrando mudanças, acompanhando políticas públicas e cobrando que órgãos e empresas cumpram suas responsabilidades.</p><p>Esta matéria é uma versão editorial produzida para a comunicação da comunidade Krim Orutu. O texto apresenta e contextualiza o Manifesto Puri sem substituir sua leitura integral. As informações devem ser acompanhadas de documentos oficiais, estudos ambientais e registros produzidos pela própria comunidade.</p><p><strong>Fontes consultadas:</strong> <a href=”https://www.mg.gov.br/riodoce/pagina/o-acordo-de-reparacao-do-rio-doce” target=”_blank” rel=”noopener”>Governo de Minas Gerais, Acordo de Reparação do Rio Doce</a>; <a href=”https://www.gov.br/povosindigenas/pt-br/assuntos/noticias/2025/04/mpi-presta-esclarecimentos-sobre-anexo-especifico-do-novo-acordo-do-rio-doce” target=”_blank” rel=”noopener”>Ministério dos Povos Indígenas</a>.</p>
