CLPI da Krim Orutu: comunidade encerra consulta sobre a repactuação do Rio Doce

O encerramento da Consulta Livre, Prévia e Informada, realizado em 30 de agosto, reuniu a Comunidade Indígena Puri Krim Orutu para tratar daquilo que só pode ser decidido coletivamente: os rumos da própria comunidade e sua participação no processo de reparação do Rio Doce.

O dia 30 de agosto de 2026 ficou marcado como uma etapa importante da caminhada da Krim Orutu. Lideranças, anciãos, famílias, juventude e visitantes estiveram reunidos no território em um encontro que combinou escuta, conversa, cultura e decisão comunitária. Não foi uma reunião isolada: foi o fechamento de um percurso de informação e diálogo sobre temas que atravessam o presente e o futuro da comunidade.

A Consulta Livre, Prévia e Informada, conhecida pela sigla CLPI, é um direito dos povos indígenas. Ela existe para que decisões capazes de afetar um povo sejam discutidas com tempo, informações compreensíveis e respeito às formas próprias de organização. No caso da Krim Orutu, o processo também se conectou à longa luta por reconhecimento dos danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão e pela participação efetiva nas medidas de reparação do Rio Doce.

Uma caminhada que vem de antes

A presença Puri no Vale do Rio Doce e a relação da comunidade com a água, a mata, a alimentação, os rituais e a memória não começaram com a repactuação. Mas o desastre de 2015 aprofundou danos que atingem justamente essas dimensões da vida. Por isso, ao longo dos últimos anos, a Krim Orutu organizou sua comissão própria de atingidos e atingidas, tornou públicas suas demandas e cobrou espaço nos mecanismos de reparação.

Esse caminho teve marcos importantes. A comunidade foi reconhecida no processo de reparação como atingida; representantes do poder público estiveram no território para apresentar informações sobre o Novo Acordo do Rio Doce; e a Assembleia Legislativa de Minas Gerais registrou um pedido de inclusão da Krim Orutu no acordo. O encerramento da CLPI dá continuidade a essa trajetória sem apagar as pendências que ainda precisam ser enfrentadas.

Toda decisão sobre o território, os direitos e o futuro da comunidade precisa nascer da palavra coletiva.

Segundo a liderança da Krim Orutu, a consulta tratou de assuntos internos da comunidade e, principalmente, do acordo de repactuação que envolve a Vale e as demais empresas responsáveis pelo rompimento. A pauta exigiu atenção porque a reparação não pode ser reduzida a números ou a uma decisão tomada longe de quem vive os efeitos do desastre. Ela envolve reconhecimento, respeito, autonomia e condições concretas para a continuidade da vida comunitária.

Escuta, cultura e presença

As imagens do encontro registram mais do que uma mesa de reunião. Elas mostram uma comunidade presente: pessoas de diferentes gerações, símbolos próprios, artesanato, alimentos preparados coletivamente, cantos, pinturas e momentos de convivência. A forma como se conversa, se escuta e se decide é parte do direito que está sendo exercido.

Na Krim Orutu, a participação não se limita a quem fala ao microfone. Cada família, cada ancião, cada jovem e cada pessoa que acompanha o processo ajuda a construir uma decisão informada. A presença de crianças e juventudes também recorda que a reparação é uma discussão sobre futuro: sobre o direito de crescer com vínculos, memória, segurança e pertencimento.

O que estava em discussão

O acordo de repactuação do Rio Doce estabeleceu recursos e medidas para povos indígenas, comunidades quilombolas e comunidades tradicionais atingidas. A consulta é justamente o espaço em que as comunidades podem compreender a proposta, apontar limites, formular prioridades e construir sua posição.

Por isso, o encerramento da CLPI não deve ser lido como o fim da participação da Krim Orutu. Ele registra uma decisão comunitária dentro de um processo maior. A comunidade segue acompanhando o tema e defendendo que qualquer medida de reparação respeite sua organização, a realidade do território e as demandas apresentadas por suas famílias.

Também é importante manter a precisão: o que existe é uma trajetória de reconhecimento, diálogo institucional e consulta ligada à reparação coletiva dos Puri. Registrar essa diferença protege a comunidade contra promessas indevidas e ajuda a manter o debate baseado em informação.

Registros em vídeo

Depois do dia 30

O que fica deste encontro é a afirmação de que a Krim Orutu quer ser ouvida a partir de sua própria voz. A reparação precisa alcançar o cotidiano, a relação com a terra, a água, os conhecimentos, a cultura e as condições para que a comunidade possa planejar o amanhã. Essa é uma discussão que não cabe em uma única reunião, mas que ganha força quando é construída de forma coletiva.

O encerramento da CLPI registra, portanto, um compromisso: seguir unido, consciente da própria história e atento aos próprios direitos. A palavra da comunidade não é um detalhe do processo de reparação. É parte essencial de qualquer decisão legítima sobre seu futuro.

Fontes e referências